27/08/2016

Opinião: Ouro em Acolhimento

A lição oferecida pelos atletas refugiados e pela Rio 2016 vale mais do que qualquer medalha

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Atletas refugiados visitam o Cristo Redentor

Quando o time de refugiados adentrou o Estádio do Maracanã, ovacionado pelos milhares de espectadores da Cerimônia de Abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro, o Brasil garantiu a primeira e mais importante medalha da competição: Ouro em Acolhimento. A iniciativa de reconhecer e celebrar todo o esforço de atletas que se viram obrigados a abandonar seus países, perder contato com famílias e deixar suas vidas para trás, além de inédita, deixa a mensagem que o mundo precisa ouvir: tolerância, aceitação, fraternidade.

O time dos refugiados na Rio 2016 é formado por 10 atletas originários da Síria, do Sudão do Sul, da Etiópia e da República Democrática do Congo. Cada um deles traz ao Brasil trajetórias marcadas por conflitos que mudaram suas biografias e ameaçaram a sua integridade física, psicológica e emocional, mas não os impediu de manter a paixão pelo esporte. Com todas as dificuldades, realizam, neste agosto, seu grande sonho: disputar uma Olimpíada.

Impossível não se emocionar com a história da judoca Yolande Bukasa Mabika, que se separou da família quando sua vila foi bombardeada na República Democrática do Congo, há quase 19 anos. O sonho de uma medalha acabou para ela logo na primeira rodada no dojô da Arena Carioca 3, mas o de encontrar sua família permanece e ganha força. Mesmo sem saber se ainda estão vivos, ela revela a esperança de que tenha sido vista por algum de seus familiares e que, assim, possam se rever um dia.

Ainda mais diretamente, o esporte não só mudou como salvou a vida de outra atleta do time dos refugiados. A nadadora síria Yusra Mardini tem 18 anos e seu 41º lugar na prova dos 100 metros borboleta valeu mais do que qualquer medalha. Há cerca de um ano, as braçadas de Yusra e de sua irmã Sarah salvaram a vida de pelo menos 18 pessoas. Por cerca de três horas e meia, no Mar Mediterrâneo, as duas puxaram o barco que levava sua família e outros sírios à Europa e que ameaçava afundar durante a travessia entre a Turquia e a Grécia.

Segundo a Organização das Nações Unidades, o total de homens, mulheres e crianças forçadas a deixar suas casas em razão de conflitos ou perseguições atingiu a marca de 65,3 milhões em todo o mundo, no ano de 2015. Esse contingente equivale à população do Reino Unido. São 65 milhões de pessoas que tiveram, no time dos refugiados, dez representantes em um esporte que não pode faltar na vida de nenhum ser humano: esperança. 

A lição oferecida pelos atletas refugiados e pelo acolhimento da Rio 2016 vale mais do que qualquer medalha. A mensagem que fica para todo o mundo não se pesa em ouro. Como disse o Papa Francisco em carta enviada ao time dos refugiados: “que, através de todos vocês, a humanidade compreenda que a paz é possível e que, com a paz, pode-se ganhar tudo. Enquanto, com a guerra, tudo se pode perder". 


Roberto Engler é deputado estadual em seu sétimo mandato pelo PSDB de São Paulo